
Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou zarpar
e de rosa a fez armar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto mar
da odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar
Com a borrasca a assolar
os sete mares do planeta
a pobre da Catrineta
mal se podia aguentar
por todo o lado rangia
no meio do temporal
e a marujada temia
p’lo peido-mestre final
e se o naufrágio fatal
se adivinhava iminente
que fazia o intendente
Capitão de Portugal?
Com ar despreocupado
como se houvesse mar-chão
de binóculo na mão
na ponte do almirantado
passeava acompanhado
pelos seus fieis tenentes
também eles indiferentes
à fúria do temporal
Era a cegueira total
na nobre gente da rosa
que de Saramago a prosa
o mote dera afinal?
O maralhal aturdido
com a força da ventania
opiniões dividia
sobre o caminho a tomar
Uns juravam que rezar
à Santa Virgem Maria
que sempre lhes acudia
se o caldo estava a entornar
era capaz de travar
a fúria do vento leste
pois só o apelo Celeste
os poderia salvar
P’ra outros, coisas da fé
eram tontices sem nexo
que desde o tabú do sexo
à última da Pia Sé
que aconselhava à ralé
a renegar a união
entre um mouro e um cristão
já que os de Alá e Maomé
não são como os de Yhavé
que era um loirinho Ariano
e não um reles cigano
de pele da cor de café
Um capitão com colhões
-no que D. José falhava-
era o que ali lhes faltava
para arranjar soluções
e não esperar que afinal
fosse o Liedson divino
com o seu instinto felino
em desmarcação fatal
aparecesse no final
a resolver finalmente
o problema punjente
da barca de Portugal
Com água a entrar em barda
as bombas quase a gripar
e a malta a desesperar
no meio de tal bernarda
uma figurinha parda
das laranjinhas da Lapa
foi-se acercando à socapa
da ponte do almirantado
e ao Capitão alheado
com a força do temporal
olhando-o com ar fatal
perguntou-lhe com um grasnado:
“Então vós, meu Capitão
perante tal cataclismo
que o pobre do autoclismo
da retrete do porão
com tanta gente a borrar-se
não descansa um segundinho
está “p’ráí” descansadinho
pela ponte a passear-se?!
Como é que pensa livrar-se
-a si a nós igualmente-
desta borrasca inclemente
que não augura acabar-se?”
D. José olhava a velha
que ousara importuná-lo
e se não fosse o chavalo
que lhe fazia parelha
saltaria tecto e telha
do seu punho já cerrado
e lhe teria mandado
tal borracho no focinho
que cagaria fininho
quatro dias sem parar…
mas lá conseguiu travar
vendo ao lado o chavalinho
“Pois saiba a dona Nélinha
bruxa do Salem da Lapa
capitã da laranjinha
que a mim não me tira a capa
e o discurso de zurrapa
com que tenta embebedar
a trupe que anda a lidar
dos mastaréus ao porão
cai redondinho no chão
porque o saquinho está roto…”
……!!??…..
“Seu safado… seu maroto
ó seu valente aldrabão…”…
“É lá!… então, então?!…
que merda vem a ser esta?
eu aqui dormindo a sesta
no meu real cadeirão
e acordo com a discussão
entre estes dois galifões?!
Eu D. Aníbal Cavaco
Presidente desta treta
que é a Nau Catrineta
metida neste buraco
aviso-te meu macaco
e a ti bruxa xereta…
…Quero saber que plano
tem cada um de vocês
p’ra nos pormos outra vez
a voar a todo o pano
………………………………..
D. José, seu carcamano
seu vendedor de ilusões
e a cáfila de coirões
que lhe dão uso ao abano
e a si velha jarreta
que na tropa já tem netos
e ao rebanho de betos
que a seguem na Catrineta
Ou me dizem nesta hora
aqui já sem mais delongas
o que essas cabeças mongas
pensam aqui e agora
p’ra tirar a nau do laço
desta borrasca maldita
ou a Santa Benedita
boa santinha do Paço
recebe no seu regaço
um par de anjos sem cabeça
que o carrasco desta peça
vai tratar de pôr o laço”
“Perdoai real senhor
-returque a velha primeiro -
mas aqui este engenheiro
diplomado a favor
não sabe como se opor
sequer à mija de um cão
quanto mais ao temporão
que assola a Nau Catrineta…”
“… E vós, ó velha jarreta
-responde-lhe o Capitão-
Possuís a solução
Na pontinha da vareta?”
“Pois possuo, seu farsante
mas estar-se-à a enganar
se pensa que lha vou dar
aqui mesmo neste instante
se daqui para diante
me elegerem Capitã
estai certos que amahã
temos mar-chão pela vante”
……………………………
“Ah, ah,ah,, deixa-me rir
que a velha é muito engraçada
tem então já aprontada
a solução do porvir?”
“ Claro, seu palerminha
meta bem dentro da tola
é ser como a formiguinha
e não cigarra estarola
não lhe ensinaram na escola
a fábula de La Fontaine?…”
esse seu conto perene
devia ser-lhe lição
mas você, seu malucão
está-se a cagar p’á despesa
cama farta e boa mesa
para os boys do seu brazão…
…Chegada enfim a borrasca
a desgraça fica a nú
todos vós ficais à rasca
sem um euro no baú
e se vos aperta o cú
tornam Éolo culpado
…………………………..
Há que pôr um fim ao fado
está a ouvir, seu gabirú?”
…………………………….
“Olha a velha pingonheira
esqueceu-se, será possível
dos tempos de D. Aníbal
do qual era a tesoureira?”…
“Eu não sou p’ráqui chamado
-vocifera o algarvio-
o que passou está passado
e é o futuro do navio
que urge dar salvação
E quanto a vós, Capitão
que apontais para salvar
a Catrineta Nação
que se presta a afundar?
vejo-vos tão paciente
esperançado, indiferente,
o que estais a magicar?”
“Meu senhor, eu D. José
sou desde mui pequenino
um homem de muita fé
não em Deus, mas no destino
Olhando p’rá nossa história
somos pátria de odisseias
sempre cobertas de glória
Ó pátria mãe de epopeias
…………………………………
eis que um’outra tenho em mãos
tirar esta nau real
queridas irmãs e irmãos
deste mar de temporal
Que o ser português profundo
dos grandes heróis de antanho
que choraram baba e ranho
pelos sete mares do mundo
Sepúlveda e Mendes Pintos
e outros tantos que mais
desde os Gamas aos Cabrais
Bartomeus ou Jacintos”…
-“…???!!! Jacintos?…
pergunta a velha carcaça-
…essa agora teve graça
Mas quem foram os Jacintos?!”
“… O nome que agora dei
àqueles desconhecidos
que nunca reconhecidos
andaram nas naus de El-Rei…
……………………………………
Pelo que sabem e eu sei
estes heróis do passado
sempre escaparam por bem
à desgraça do seu fado
e que sem nada o prever
sem mexerem um dedinho
sairam bem de finiho
das alhadas, estão a ver?…
……………………………….
Deixem correr o marfim
que mal ou bem nos safamos
se na merda todos estamos
ela há-de chegar ao fim
Como diz o Zé Povinho
siga a marcha toque a banda
de Lisboa a Samarcanda
p’rá frente é que é o caminho
e eu garanto a vocês
que este doce e triste fado
que é o nosso em todo o lado
se cumpre mais uma vez
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O Jumento

Com que então o meu querido amigo depois duma longa ausência brinda-nos de novo com a sua excelente Nau Catrineta que retrata este país de treta. E crê que o nosso triste fado vai continuar. Quanto à pergunta que me deixas-te.
Como julgo que saibas fui operado em Setembro a um tumor maligno no intestino grosso tendo feito uma colostomia. Presentemente encontro-me a fazer tratamentos de quimioterapia como medida de precaução. Felizmente tenho reagido bem aos tratamentos e dos exames que tenho feito a perspectiva não é desanimadora. Mas meu caro amigo só no final dos tratamentos saberei qual o veredicto acerca da irradicação total do tumor. Já me conformei com a sorte que tive que, como calcularás transformou considerávelmente a minha vida, sobretudo ter deixado que desfrutar de coisas que mais gostava. Aquele abraço
Raul
Com a força que de ti irradia o mal não tem hipótese, podes crer.
Um GRANDE abração
Zecatelhado
estiveste ausente do reino, exilaste nalguma barcaça? agora acordaste com um rol que manda caroço…
abraço e não fujas
oh meu caro grande amigo,que saudades tantas saudades.Nunca me olvido dos nossos cafe expresso,do blog e das trocas de ideias enfim, tertulias ciberneticas inesqueciveis.Abraço.
Outro e GRANDE para a Valéria, obrigado.
Zecatelhado
Meu caro Zé.Faz tempo e a tua ausência foi meditativa originando boas vergastadas verbais…Aqui fica um grande abraço e retomemos as nossas lides…enfunem-se as velas e mão firme no leme.
Ps: O meu blogue continua a ser o anomalias.Aqui aparece o da minha escola visto que tenho o registo na wordpress…
Outro texto sublime, Zeca!
Abraço