• O Autor

  • Uma Questão de Paixão

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  • Dragoscópio

    ...Quando eu digo Deus não é forçoso que eu signifique um Deus confinado a determinado ritual religioso; de facto, posso apenas dizer aquilo que, de certa forma, o conceito de Deus simboliza e consagra, ou seja, determinados princípios e fins - uma causa primeira e uma causa final. Quer dizer, a minha acção deve reger-se por princípios e fins; não quedar apenas refém, enclausurada e cativa dos meios. Pois, conforme estipula a matriz da nossa própria civilização, a acção humana não é um mero exercício de meios; como não é um mero exercício de fins. Nesse caso, nesse exercício desligado e cacofónico dos meios ou dos fins cair-se-á fatalmente no desequilíbrio, na desarmonia caótica. Porque, assim sendo, ou os fins justificarão os meios ou os meios determinarão os fins. Perdidos os princípios, tudo se torna, então, possível. O cosmos deixa de estar sujeito a uma necessidade –isto é, uma ordenação primordial, eterna e transcendente (e transcendente não é nenhum palavrão feio, apenas significa não estar sujeito a caprichos, acidentes e acasos do tempo) – e passa a estar ao pleno dispor da sorte e do acaso. E de quem lá impera. Desce-se, assim, do reinado do sentido, do simbólico, para a tirania do aleatório, mascarada, no melhor dos casos, duma democracia de alienados. Note-se, a esse respeito, como o nosso tempo manifesta uma hostilidade e um desprezo ostensivo pelo “primórdio” e, em contrapartida, celebra o “media” e a “finança” – decantações, respectivas, quer do “meio”, quer do “fim”. Por outro lado, esta ordenação hierárquica das coisas fundada na criação (e entenda-se aqui “criação” não no seu significado apenas religioso, mas também artístico, não sòmente demiúrgico mas também poético – ou seja, não apenas bíblico, mas sobretudo helénico) é deveras interessante e terrível. Senão, reparemos: se aceitarmos a sua lógica teremos qualquer coisa como "o criado ou criatura deve servir o criador. Assim, devemos servir a Deus, tal qual o dinheiro nos deve servir a nós." Em contrapartida, se nos rebelarmos contra essa ordem, se entendermos que (por exemplo, porque não somos criados, porque somos meras moléculas sem qualquer vínculo ao sagrado) não devemos servir a Deus, pode, à primeira vista, parecer muito libertário, catita e altamente moderno, mas depois tem um reverso sinistro que nos atira, de escantilhão, para abaixo dos pré-históricos canibais: é que, na mesma medida, o dinheiro e tudo aquilo que nós criámos deixa de estar na obrigação de nos servir a nós. Tornamo-nos então, nós próprios, servos dos nossos criados, criados dos nossos produtos, prole e plasma dum qualquer Estado burocrático. Preciso de vos apontar a realidade actual à vossa volta? Porque nos rebelámos contra o superior, tornámo-nos escravos do inferior; porque enterrámos as asas do espírito, rastejamos agora no pântano da matéria; porque desertámos do princípio, estamos agora confinados à finança. Partimos e pulverizámos em míseros caquinhos todo o imenso templo da Crença em Deus, doravante nanificada em milhares de minicrenças: crença na casa, crença no carro, crença no sucesso, crença no progesso, crença na ciência, crença no jornal, crença na televisão, crença no pastor, crença no doutor, crença na turba, crença no número, crença no trabalho, crença no umbigo, crença no dinheiro - somos agora miriápodes ouriçados não já em patas mas em crenças, com as quais amarinhamos por tudo, empeçonhando a esmo, e tudo isso embrulhado no tal saco da super-crença na Finança Toda Poderosa, gestora do Céu e do Inferno na Terra. Em boa verdade, à crença deixámos de tê-la para passar a sê-la. De sujeito degradámo-nos a objectos; de protagonistas, passámos a acessórios; de portadores, a transportes; de proprietários, a possessos. O produto tornou-se mais valioso que o produtor. Descartado o Sagrado, a natureza tornou-se descartável para o homem e o homem, por sua vez, tornou-se descartável para a sua própria máquina industrial tecno-eficiente. O conjunto evolutivo lembra, cada vez mais, um foguetão cósmico que vai consumindo e largando andares à medida que se afasta e embrenha direito a sabe-se lá onde. Certo é que quanto mais aumenta a nossa descrença no Sagrado, quanto mais ao descrédito o votamos, ou seja, quanto menos importância lhe damos, mais aumenta a importância que damos a bugigangas e próteses existenciais que fabricamos, e, inerentemente, mais se agiganta a crença que para elas transferimos. No fundo, tanto quanto uma perversão na hierarquia de valores, é uma inversão que se instaura e, gradualmente, nos vai absorvendo: o novo sobrepõe-se ao original, o produto ao produtor, o medíocre ao sublime. De espaço de cultura, o mundo converte-se assim em mero palco da profanação. Desligado do cosmos, oscila, perigosa e maquinalmente, entre a incubadora artificial e o matadouro industrial.
    in Dragoscópio. A par do Jumento, a léguas os dois melhores blogues portugueses.
  • Obrigações Diárias

No Solar da Rosa

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Apresentador: Muito boa noite meus senhores e minhas senhoras. Sejam muito bem vindos a mais uma sessão fadista aqui na humilde tasquinha da rosa ao Rato. Esta noite o programa promete. Como puderam vez no cartaz publicitário, temos um terceto de fadistas de estalo…


Um da plateia: Epá, se é p’ró estalo vou já começar a arregaçar as mangas!


Apresentador:… Ó meu amigo, por favor…


O mesmo… Amigo? mas tu conheces-me de algum lado ó meu talibã de Gaza?…


Outro: Epá, deixa lá o homem que ele já está à rasca, eheheh!

Risada geral na plateia

Apresentador: … Como eu ia dizendo…


Outro: Então diz ó morcão!


Outro ainda: Epá, se não deixam o otário falar, esta merda nunca mais começa.


Plateia aos berros batendo palmas a compasso: Fala, fala, fala…


Apresentador: Pois bem, então temos cá hoje as seguintes personalidades fadistas: Pedro Santana, Monhé da Costa e, para fechar o concerto o nosso estimado gerente Zé Engenheiro. Como sempre, à guitarra o avô Palmeida Santos, à viola o Jerónimo metalúrgico, no baixo a sempre sexy Anã Droga e no contra – baixo o reformado minorca Mendes.

Depois do anúncio das candidaturas à Câmara dos Fadistas da Capital por parte Pedro Santana e do Monhé da Costa, ei-los que se desafiam mutuamente hoje e aqui, onde se vão degladiar à desgarrada. Uma salva de palmas para os dois beligerantes.

Público aplaude, apagam-se as luzes, acendem-se as velas, crepitam os chouriços na canoa, entram os fadistas, gemem as guitarras.

Santana: Boa noite meus senhores

vou entrar cheio de fé

e com mais ou menos flores }

eu vou ganhar ao Monhé }bis

Monhé da Costa: Vai beber água das ratas

ó meu reles fraldisqueiro

tu vais ganhar o que as gatas

ganham no mês de Janeiro

Plateia; Boa, boa, à garganta linda!

Santana: Vais levar uma tareia

meu chico escuro indiano

esclarece a plateia

se és monhé ou cigano

Plateia; Ah,ah,ah,ah,ah! tás com a corda toda ó Santana. Á boca doce!

Monhé da Costa: Eu fui parido em Lisboa

a capital da nação

o meu pai era de Goa

minha mãe do Algueirão

Santana: Cá p´ra mim tás a inventar

como todos os canalhas

e eu vou-te barbear

que os meus dentes são navalhas

Monhé da Costa: Olha vê lá se te espalhas

meu valente gabirú

se os teus dentes são navalhas

faz-me aqui a barba ao cú

Plateia; Ah,ah,ah,ah,ah! Já chega, ganhou o monhé, ganhou o monhé!

Monhé da Costa e Santana pegam-se à chapada e saem disparados pela esquerda alta.

Plateia: Bravo, Bravo! isto é que é um espectáculo à portuguesa como deve ser.

Entra em cena o apresentador

Apresentador: Meus senhores e minhas senhoras, peço desculpa em nome da gerência pelo espectáculo degradante a que acabámos de assistir…

Plateia: Degradante?!… qual degradante qual carapuça, um espectáculo puramente lusitano! Isto sim, vale a pena pagar bilhete de camarote, eheheheheh!

Apresentador: Bem… então se gostaram… E agora, para fechar a sessão, chamo ao palco o nosso ilustre gerente-mor da tasquinha rosa do Rato, o grande, o sensacional, o maior…

Uma voz da plateia: Epá chega de pomada que amanhã és aumentado pela certa, anda lá com essa merda!

Apresentador: … ora como dizia, o grande, o sensacional,…

Voa um par de sapatos da plateia diteito ao apresentador

Uma voz: Ó meu, tem lá calma que o esticadinho da Silva não é o presidente da América, eheheheheh!

Apresentador: … meus senhores e minhas senhoras… Zé engenheiro!

Plateia: UUUUUUUhhhhhhhhhhh!!! Vai-te embora ó rouxinol da bicada!… Cangalheiro!…

Zé Engenheiro: Obrigado, obrigado. Com letra da minha autoria e música do Fausto, vou cantar: O TGV vai de saída.

Gemem outra vez as guitarras

Zé Engenheiro: O TGV vai de saída

adeus Santa Apolónia

se agora vou de partida

levo-te comigo ó cana-velha ( a cana-velha é a Nélinha das laranjas)

levo-te comigo meu estupor

anda comigo nesta aventura

p’ra lá da loucura

p’ra lá do Equador…

Em da plateia: Alto e pára a guitarra!… Do Equador?!… mas o TGV vai até à América Latina?!

Outro: Não meu, isso é só p’ra rimar e ser fiel à música do Fausto!

O primeiro: À bom!… tava a ver…

Zé Engenheiro: Posso continuar ou não?

( Antes que pudessem responder irrompe p’la sala Dona Nélinha, presidente da tasca da laranjinha)

Dona Nélinha: Não pode continuar nada seu marmelo mal cheiroso. Que ousadia é essa de me enfiar na merda do seu faduncho carunchoso?

Zé Engenheiro: Perdão mas…

Um da plateia: Estás feito ó Engenheiro, agora aguenta-te com a velhinha, ahahahahah!

Dona Nélinha: Velhinha é a sua mãe, seu perdigueiro sarnento!…

Plateia: Boa, velhota! dá-lhe com a bengala!

Dona Nélinha: Eu não uso bengala, mas juro que que lhe dou com esta mala de marroquim no cocuruto!…

Plateia: Dá-lhe, dá-lhe bruxa do Salem da Lapa!

( Dona Nélinha perde as estribeiras com a súcia de gente reles que a acirra e atira com a mala de marroquim nas fuças do provocador. Zé Engenheiro vendo que se está a armar rebuliço dá à sola pela direita baixa, não sem antes levar com um chouriço meio assado na nuca. É o pandemónio geral com mesas, cadeiras, canoas de assar chouriço, garrafas de tinto carrascão etc, a voar pelos quatro cantos da sala.

Entra a polícia de choque a distribuir farturas de cassetete e vai tudo em cana.

Escondidos atrás das bambolinas os músicos e o apresentador comentam)

D. Jerónimo: Eu cá sempre avisei!…

Anã Droga: Está a ver avô Jerónimo, já está convencido? Veja aí se a bófia já basou que eu preciso de enrolar um porro p’ra desanuviar.

Apresentador: Peço desculpa mas aqui não se pode fumar, é um espaço fechado, se quer queimar a broca vá p’rá varanda.

Anã Droga: Epá, deixa-te de merdas parolas, poluem mais o ambiente as bufas mal-cheirosas que largas por aí que o fumo da minha broca, qualquer dia estes puritanos da treta ainda se lembram de proibir os W.C. dentro de casa por causa da poluição atmosférica e passamos todos a cagar na varanda que é um gôzo, eheheheheh!

D. Jerónimo: Eu cá sempre avisei, eu e os meus camaradas…

Anã Droga: Ó avô Jerónimo, mas avisou o quê?!

D. Jerónimo: Eu cá sempre avisei, eu e os meus camaradas, que esta coisa do TGV ia dar merda e da grossa, avisei ou não avisei? Eh,eh,eh,eh,eh!

FIM

5 Respostas

  1. A tua imaginação é sem sombra de dúvida muito fértil meu caro amigo. Este teu solar da Rosa divertiu-me imenso. Estás a ver o porquê de seres imprescindível nestas lides.
    Um abraço
    Raul

  2. Valem a pena os teus longos silêncios, zeca. A seguir vem disto! Supimpa!

    Abraço

  3. Ora, companheiros…
    Abração
    Zecatelhado

  4. isto ainda vai passar no Variedades…

    abraço

  5. Ora ainda bem, re encontrei o Zeca.
    Pois amigo Zeca, com este teatro ou outro do mesmo género, nós estamos é fo….., vai-se tudo no ofshor e nós é que “shoramos”
    pu… que os pôs neste mundo.
    Um abraço

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