• O Autor

  • Uma Questão de Paixão

  • Os melhores da blogosfera… a léguas!

  • Dragoscópio

    ...Quando eu digo Deus não é forçoso que eu signifique um Deus confinado a determinado ritual religioso; de facto, posso apenas dizer aquilo que, de certa forma, o conceito de Deus simboliza e consagra, ou seja, determinados princípios e fins - uma causa primeira e uma causa final. Quer dizer, a minha acção deve reger-se por princípios e fins; não quedar apenas refém, enclausurada e cativa dos meios. Pois, conforme estipula a matriz da nossa própria civilização, a acção humana não é um mero exercício de meios; como não é um mero exercício de fins. Nesse caso, nesse exercício desligado e cacofónico dos meios ou dos fins cair-se-á fatalmente no desequilíbrio, na desarmonia caótica. Porque, assim sendo, ou os fins justificarão os meios ou os meios determinarão os fins. Perdidos os princípios, tudo se torna, então, possível. O cosmos deixa de estar sujeito a uma necessidade –isto é, uma ordenação primordial, eterna e transcendente (e transcendente não é nenhum palavrão feio, apenas significa não estar sujeito a caprichos, acidentes e acasos do tempo) – e passa a estar ao pleno dispor da sorte e do acaso. E de quem lá impera. Desce-se, assim, do reinado do sentido, do simbólico, para a tirania do aleatório, mascarada, no melhor dos casos, duma democracia de alienados. Note-se, a esse respeito, como o nosso tempo manifesta uma hostilidade e um desprezo ostensivo pelo “primórdio” e, em contrapartida, celebra o “media” e a “finança” – decantações, respectivas, quer do “meio”, quer do “fim”. Por outro lado, esta ordenação hierárquica das coisas fundada na criação (e entenda-se aqui “criação” não no seu significado apenas religioso, mas também artístico, não sòmente demiúrgico mas também poético – ou seja, não apenas bíblico, mas sobretudo helénico) é deveras interessante e terrível. Senão, reparemos: se aceitarmos a sua lógica teremos qualquer coisa como "o criado ou criatura deve servir o criador. Assim, devemos servir a Deus, tal qual o dinheiro nos deve servir a nós." Em contrapartida, se nos rebelarmos contra essa ordem, se entendermos que (por exemplo, porque não somos criados, porque somos meras moléculas sem qualquer vínculo ao sagrado) não devemos servir a Deus, pode, à primeira vista, parecer muito libertário, catita e altamente moderno, mas depois tem um reverso sinistro que nos atira, de escantilhão, para abaixo dos pré-históricos canibais: é que, na mesma medida, o dinheiro e tudo aquilo que nós criámos deixa de estar na obrigação de nos servir a nós. Tornamo-nos então, nós próprios, servos dos nossos criados, criados dos nossos produtos, prole e plasma dum qualquer Estado burocrático. Preciso de vos apontar a realidade actual à vossa volta? Porque nos rebelámos contra o superior, tornámo-nos escravos do inferior; porque enterrámos as asas do espírito, rastejamos agora no pântano da matéria; porque desertámos do princípio, estamos agora confinados à finança. Partimos e pulverizámos em míseros caquinhos todo o imenso templo da Crença em Deus, doravante nanificada em milhares de minicrenças: crença na casa, crença no carro, crença no sucesso, crença no progesso, crença na ciência, crença no jornal, crença na televisão, crença no pastor, crença no doutor, crença na turba, crença no número, crença no trabalho, crença no umbigo, crença no dinheiro - somos agora miriápodes ouriçados não já em patas mas em crenças, com as quais amarinhamos por tudo, empeçonhando a esmo, e tudo isso embrulhado no tal saco da super-crença na Finança Toda Poderosa, gestora do Céu e do Inferno na Terra. Em boa verdade, à crença deixámos de tê-la para passar a sê-la. De sujeito degradámo-nos a objectos; de protagonistas, passámos a acessórios; de portadores, a transportes; de proprietários, a possessos. O produto tornou-se mais valioso que o produtor. Descartado o Sagrado, a natureza tornou-se descartável para o homem e o homem, por sua vez, tornou-se descartável para a sua própria máquina industrial tecno-eficiente. O conjunto evolutivo lembra, cada vez mais, um foguetão cósmico que vai consumindo e largando andares à medida que se afasta e embrenha direito a sabe-se lá onde. Certo é que quanto mais aumenta a nossa descrença no Sagrado, quanto mais ao descrédito o votamos, ou seja, quanto menos importância lhe damos, mais aumenta a importância que damos a bugigangas e próteses existenciais que fabricamos, e, inerentemente, mais se agiganta a crença que para elas transferimos. No fundo, tanto quanto uma perversão na hierarquia de valores, é uma inversão que se instaura e, gradualmente, nos vai absorvendo: o novo sobrepõe-se ao original, o produto ao produtor, o medíocre ao sublime. De espaço de cultura, o mundo converte-se assim em mero palco da profanação. Desligado do cosmos, oscila, perigosa e maquinalmente, entre a incubadora artificial e o matadouro industrial.
    in Dragoscópio. A par do Jumento, a léguas os dois melhores blogues portugueses.
  • Obrigações Diárias

Bate o Pau e Sobe o Pano

 teatro.jpg

Novembro de  2005

 
“PENHORAS DO INFERNO”

 
A acção passa-se no Inferno, mais propriamente no local onde estão situados os escritórios de Lúcifer e dos seus acessores, Beleal, Asmodeu e Belzebú.

Temos uma sala de espera completamente nua, ou seja, sem qualquer peça de mobiliário. Os “clientes” esperam de pé. As paredes estão pintadas de preto e o tecto de vermelho vivo. Na parede de cada uma destas salas está uma tabuleta que diz: «PENHORES SOB FAVORES».

No gabinete de Lúcifer trava-se o seguinte diálogo:

 

Lúcifer: Pois muito bem pessoal, quem temos nós afinal hoje aqui na nossa loja?
Belzebú: A raça que mais me enoja, para ser franco e leal!
Beleal: Abre-te com Beleal…
Belzebú: Políticos, que rica corja!
Asmodeu: Vou já acender a forja porque há chicha p’ra queimar! Não está mal p’ra começar, ah! hoje o dia promete!
Lúcifer: Bem…sendo assim vou à retrete porque a coisa vai durar!
Beleal: Portanto há que despejar? Eh,eh,eh! chamo a isso prevenção!
Belzebú: Ora sendo assim então…
Asmodeu: Quatro na mão a mijar!
Todos os quatro: Ah,ah,ah,ah,ah!

 Vão direitos à retrete infernal. Bexigas aliviadas e voltam ao escritório de Lúcifer.

 
Lúcifer: Meus irmãos infernais, devido ao que está lá fora, a estratégia nesta hora vai ser diferente das mais!
Beleal: O que é que planeais?
Lúcifer: Que os quatro junto fiquemos e com atenção escutemos este duo de pardais!

 Sentam-se os quatro e chamam o Diabrete magarefe.

 Lúcifer:(para o Diabrete) Ora manda lá entrar um a um os passarões!
Diabrete: P’lo número dos talões ou por ordem alfabética?
Lúcifer: Para acertar rima e métrica, qualquer um dos dois coirões!
Diabrete: Muito bem queridos patrões, vamos lá dar-lhes avio!

 (abre a porta e anuncia)

 Diabrete:: O primeiro é o algarvio que se diz barra em cifrões!
Lúcifer: Entra lá gasolineiro, diz o que tens a propor!
Algarvio: Eu vos saúdo senhor, igualmente a vós senhores. Ó digníssimo gestor desta casa de penhores, da qual preciso favores, dizei qual o vosso preço. Ficai certos que o mereço pois sou homem de valores!
Lúcifer: E trazes a ladaínha bué de bem ensaiada!
Algarvio: Qual ladaínha?! Que nada! Foi espontânea a confissão!
Beleal (em surdina para Asmodeu): Canta bem este cabrão!
Asmodeu(em surdina para Beleal): Que cantilena melada!
Lúcifer: Isso não releva nada, vamos embora ao que interessa!
Belzebú: Essa é que é essa!
Lúcifer: Diz lá tu pantomineiro, que pretendes de verdade?
Algarvio: A vossa boa vontade…Eu quero ser Presidente!
Beleal: E como pagas à gente, saciada essa vontade?
Algarvio: Digo-vos sinceramente: Darvos-ei tudo o que tenho, até mesmo o meu casaco!
Belzebú (em surdina para Asmodeu): Este Algarvio é macaco!
Asmodeu (em surdina para Belzebú): Comparado com a gente, decerto é mais velhaco!
Lúcifer: Pois bem, não cobro pataco a essa tua pretensão!
Algarvio: Como?!…Mas como não?!… não entendo o teu dizer!
Lúcifer: Ai não estás a entender?
Algarvio: Não senhor, posso jurar!
Lúcifer: Então passo a explicar, mas peço que tenhas calma!… Muito bem, quero tu alma, estarás disposto a pagar?
Algarvio: A alma?!…Estás a brincar?!
Lúcifer: Nunca falei tão a sério!
Algarvio: Mas que raio de critério…
Lúcifer: Por aí não quero entrar!… Então?
Algarvio: Esperai!…Deixai-me pensar!
Lúcifer: Tens todo o tempo do mundo, podes pensar bem a fundo, avisa quando acabares!

 (O Algarvio pensa um bocado)

 Algarvio: Muito bem, eu estou disposto, mas a dar-te só metade!
Lúcifer: Por esse preço beldade…
Algarvio: Não é um preço a teu gosto?
Lúcifer: Digamos que não desgosto, quiçá cheguemos a acordo, depois de atender o gordo que está no salão oposto!
Algarvio: O gordo?!… Será o gordo Dom Mário?…
Lúcifer: Que não será tão otário como estás a ser, aposto!
Algarvio: Já partes do pressuposto que ele a vende por inteiro…
Algarvio: Mais certo que o cozinheiro trazer favas e entrcosto!

 (entra o cozinheiro infernal com uma travessa de comida fumegante)

 Cozinheiro Infernal: Ora aqui está o almoço: Favinhas com entrecosto!
Os quatro diabos: Bem na hora a nosso gosto!
Eh,eh,eh,eh,eh! És servido ó mal-disposto?
Algarvio: Olhai senhores p’ró meu rosto!… Confesso que estou espantado! Já decidi, está pensado!…
Lúcifer: E?…
Algarvio: Vendo a alma de bom gosto!
Beleal: Ora bem! Agora esperas na saleta aí ao lado!…
Belzebú: Já te faremos a folha em papel negro timbrado!
Asmodeu: E com teu sangue assinado!

 (O magarefe infernal leva o Algarvio para o gabinete contíguo)

 Lúcifer:Ah,ah,ah!… Este já está, gostaram do estratagema?
Beleal: Foi melhor que ir ao cinema, o pobre ficou borrado!
Belzebú: És mesmo muito malvado, bem esgalhada a artimanha!
Asmodeu: Disse a garça p’ra piranha: Mexe-te e estás papada!
Lúcifer: O Algarvio é um tolo, é burro e de que maneira, certo é que se abre a boca, entra mosca ou sai asneira!
Todos: Ah,ah,ah,ah,ah!
Lúcifer: Sendo que este já cá canta, mandai lá entrar o gordo!
Beleal: Pelo que vi não me espanta que venha aí novo acordo!
Asmodeu: Concordo!
Belzebú: Concordo!
Lúcifer: Discordo!…Este é mui mais refinado, mais difícil de papar!…É uma rês bem mais dura!…
Beleal: Mas aposto a cornadura em como o vais baralhar!
Lúcifer: (Para o magarefe) Manda-o entrar!
Diabrete: Anda lá gordo de um raio!
Dom Mário: Sê educado ó catraio, respeito pela velhice!
Asmodeu: Que foi que o balofo disse?
Beleal: Mandou calar o chavalo!
Belzebú: Sacrista, vou dar-lhe um estalo!
Lúcifer: Calminha aí, baixa a mão, companheiro Belzebú!
Belzebú: E um pontapé no cú?
Lúcifer: Ainda menos, també não! Vamos embora a’tinar!
Dom Mário: Vinha cá negociar!…
Lúcifer:
Já sabemos rezingão; Que mais poderia ser? Sendo assim vamos saber: Que propões velho leão?
Dom Mário: Verdade que o que me trouxe, aqui por estas paragens, é que a merda das sondagens me deixam preocupado!…
Lúcifer: Quer dizer… estás entalado!
Beleal: Direi mais… desesperado!
Asmodeu: Estás à rasca é bom de ver!
Belzebú: E crês que te vamos valer?
Dom Mário:
Assim espero meus senhores, preciso os vossos favores…
Lúcifer: P’ra poderes ser Presidente?
Dom Mário: É isso efectivamente!…Mas como é que adivinhaste?!
Lúcifer: Já cá este um outro traste pedir o mesmo à gente!
Dom Mário: Um Algarvio repelente que semeia gafanhotos?
Lúcifer: Outros chamam perdigotos, mas é esse realmente!
Dom Mário: Ai o maldito demente!… E que acordo fez contigo?
Lúcifer: Isso é que eu não te digo, não sou um chibo indecente!
Dom Mário: Mas diz-me concretamente: Só me resta desistir?
Lúcifer: Eu não te quero mentir… tens poucas possibilidades!
Dom Mário: Tenho muitas amizades, gente mui bem colocada…
Lúcifer: Mas não te servem de nada…
Dom Mário: Pois é!… isso é verdade… e se tu já garantiste a vitória ao Algarvio…já perdi o desafio…
Lúcifer: Nunca se sabe, amizade!
Dom Mário: Nunca se sabe?!… Mas então…
Lúcifer: Eu não disse sim nem não, há uma possibilidade!
Dom Mário: Jura que falas verdade!
Lúcifer:Juro verdade, verdadinha!
Dom Mário: E essa possibilidade, pode saber-se qual é?
Lúcifer:
Ai pode pode, Olaré!… Diz-me lá velho xéxé, que podes tu oferecer?
Belzebú:(em surdina) Ardiloso Lúcifer!
Beleal: (em surdina) Jogando ao gato e ao rato!
Asmodeu: (em surdina) Tá no papo! Tá no papo!
Dom Mário: Tudo aquilo que quiseres!
Lúcifer: Até mesmo a tua alma?
Dom Mário: Até mesmo a minha alma, quero tramar o Algarvio!
Asmodeu:(em surdina)Obsessivo e doentio!
Belzebú:(em surdina)Quer mesmo levar a palma!
Lúcifer: Muito bem, posso pedir a pena, o sangue e o contrato?
Dom Mário: Se o entenderes de facto, pode vir o material!

 (Dom Mário assina a venda da alma ao Diabo. Depois de assinado, Lúcifer manda-o sair. Ficam os quatro seres do Inferno em cena.)

 Asmodeu: Mas…mestre, compras-te a alma…
Lúcifer: Calma!…eh,eh,eh! aos dois? Claro que sim!
Beleal: Mas…
Lúcifer: Como assim?
Belzebú: Só um poderá vencer…mesmo correndo à batota, confesso não estar a ver, como descalças a bota!
Lúcifer: Não sabeis?…Pois tomai nota que rápido entendereis!

 (Vira-se para o Diabrete magarefe)

Lúcifer: Manda entrar esses pasteis!

 (Entram Dom Mário e o Algarvio)

 Lúcifer: Como eu sou um bonzão que não diz não a ninguém, já repararam e bem que arranjei confusão. Aceitei comprar a alma a ambos os contendores…
Algarvio: Belo serviço, sim senhores!…
Dom Mário: E agora, e agora?
Lúcifer: Deitamos os contratos fora!
Algarvio: Como assim?!
Lúcifer: E só compro a alma a um, que será o vencedor!
Dom Mário: E quem é que escolheis, senhor?
Algarvio: A mim que cheguei primeiro!
Dom Mário: Olha este batoteiro!…
Lúcifer:
Calminha aí por favor!
O que eu quero dizer é isto: Vamos fazer um sorteio, que ninguém tenha receio, porque não farei batota. Quem ganhar faz o contrato, vai ganhar a presidência, e aquele que perder…paciência, mete a viola no saco!
Dom Mário: Não sei, não sei!…
Algarvio: Eu também não!…
Lúcifer: Ou recorremos então a uma terceira via!
Dom Mário: Mas existe?! Quem diria!
Algarvio: E de que consta essa via?
Lúcifer: Que um e outro contrato sejam válidos de facto, sendo que garantirei…
Dom Mário e o Algarvio: Que?…
Lúcifer: Que com mais ninguém negociarei e que um de vós vai ganhar!
Dom Mário e o Algarvio: Está bem, vamos aceitar!
Lúcifer: Então fica combinado, que agora daqui para a frente, no que toca ao Presidente, não me meto nesse fado. Sendo assim fica acordado, vou guardar os documentos, que não há mais argumentos e está o caso encerrado!

 (Saem Dom Mário e o Algarvio, muito pensativos,. Após a saída destes… )

 Asmodeu-Beleal-Belzebú: Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah! Nunca na vida topamos golpada tão genial!

Lúcifer: Que esperavam afinal? Que desse algo aos dois tótós?
Beleal:Mas confesso aqui para nós, eu vi a coisa tremida!
Asmodeu: Também vi a nossa vida que parecia andar para trás!
Belzebú: Mas patrão, tu és um ás!… P’r’alguma coisa és o chefe!
Lúcifer: Chama lá o magarefe! Que guarde bem os contratos!
Diabrete: Chamou senhor meu patrão?
Lúcifer: Toma lá isto na mão e guarda tudo no cofre, e muito bem guardadinho!
Diabrete: Descanse meu patrãozinho, que lá nem entra o Diabo!
Todos: Este chavalo é danado, eh,eh,eh,eh!
Lúcifer: Bem… vamos lá a atacar as favas com entrecosto, um almoço que é um gosto, só é pena já estar frio!
Lúcifer: Chamemos lá o vadio do magarefe outra vez!
Diabrete: Que ordenais vós agora?
Lúcifer: Que mandais sem mais demora avivar lume à fornalha, e trazei uma toalha, copos, pão e os talheres, despachai-vos se puderes, sê velôz e dá ao rabo, temos fome de diabo pois passa bué da hora!

Bate o Pau e Sobe o Pano

 teatro.jpg

Novembro 01, 2005

O ARMAJEDÃO


Zé Quinteiro: Pois sabei compadre Zé, estou muito preocupado!
Zé Hortelão: Estais bué mal encarado, podeis dizer a razão?
Zé Quinteiro: Já chegou o Armagedão, castigo da humanidade…
Zé Hortelão: Para falar a verdade, não entendo o que dizeis!
Zé Quinteiro: Como não entendeis? Já se ouvem as trombetas! Já escutamos o seu som!
Zé Hortelão: (O compadre não está bom!)De que falais afinal?
Zé Quinteiro: Falo do Juízo Final, pois que sou homem de fé!
Zé Hortelão: Confesso compadre Zé, não entendo patavina!
Zé Quinteiro: Vai cumprir-se a nossa sina, tal e qual a professia!
Zé Hortelão:
Não tarda nada é meio-dia e ainda nada entendi!
Zé Quinteiro: Vou explicar-lhe o que ouvi ao prior da freguesia:
Disse ele alto e bom som
que esse tal Armagedon
ou também Armagedão
na terra se cumpriria
quando se instalasse o dia
da plena confusão!
Zé Hortelão: Ora entendi, e então?!…o bom compadre acredita…(já se passou da marmita) que chegou o Armagedão?
Zé Quinteiro:Então não?!…só pode mesmo compadre perante o que estou a ver ou estou a ensandecer ou tinha razão o padre!
Zé Hortelão: ( Está doidinho de verdade passou-se mesmo, é real) Mas o que o leva afinal a ter assim a certeza?
Zé Quinteiro: Atentai na subtileza da Divina professia:
as galinhas engripadas
os porcos com triquinose
os coelhos com a matose
e as vacas amalucadas!…
Zé Hortelão: (Talvez sejam infundadas as dúvidas da sanidade…)
Para vos falar verdade também tenho mal na porta pois já produzo na horta mais veneno que hortaliça…
Zé Quinteiro: Você também?!… Chiça!!! Isso não é brincadeira?
Zé Hortelão: Pois sabei que na minha leira já nada cresce sem químico…
Zé Quinteiro: E o vosso poder anímico…
Zé Hortelão: Vai-se pela ribanceira!…
Zé Quinteiro: Por isso meteis sulfato…
Zé Hortelão: …É um facto, é um facto…Dos grelos aos agriões, dos tomates às nabiças, couves, batatas, feijões, todo o tipo de hortaliças!
Zé Quinteiro: Aposto as minhas suíças…Só pode ser, Hortelão…penso que o tempo é chegado, o tal tempo anunciado de seu nome Armagedão!
Zé Hortelão: Sim, talvez tenha razão!…
Zé Quinteiro: Meu compadre, então pelo sim pelo não vamos lá falar com o padre.

( Enquanto os compadres se dirigem ao encontro do prior, dois inimigos figadais de antanho que haviam escutado tudo, retrucavam:)

Diabito Maldito:: Estás a topar velho alado no que as vossas tretas dão? Ai tu e o teu patrão!…mas que duo mais chalado!
Anjo Marmanjo: :Vê lá se ficas calado ó da cornadura esbelta… (ih,ih,ih!)
Diabito Maldito::Olhem-me este asa delta castigador do pagode!…
Anjo Marmanjo: :Fecha a boca pés de bode,caixa córnea da desgraça!…(ih,ih,ih!)
Diabito Maldito::E as tuas asas sem graça?-tomaram ser meus chifrões-mais feiosas que as da taça da liga dos campeões!…(eh,eh,eh)

( Os compadres acabam de ser recebidos pelo padre )

Padre: Ora vivam meus irmãos, a que devo este prazer?
Zé Quinteiro:Padre, está a acontecer o tal de Armagedão!…
Zé Hortelão:E a sua opinião nós queríamos escutar.
Padre: Comecem lá a falar!… (estes estão doidos varridos)

(contam ao padre as suas razões)

Zé Quinteiro:… Estamos assim convencidos e em sintonia total…
Zé Hortelão:… De que o Juízo Final já começou a ocorrer!
Padre: (sorrindo) ( na verdade, é bom de ver, perderam mesmo o juízo) Meus irmãos vou ser conciso e explicar direitinho muito bem explicadinho o que será o Juízo:
Vacas loucas sempre houve
e galinhas engripadas
e há muito comemos couve
e batatas sulfatadas
Podem vocês sossegar
podeis ir em paz embora
quanto o tal dia chegar
eu mando avisar na hora

Para já comam galinhas
coelho, vaca, leitão
batatas e umas couvinhas
que vem longe o Armagedão

Ele só virá no dia
que suceder fatalmente
estar a panela vazia
e a malta não dar ao dente!

Bate o Pau e Sobe o Pano

teatro.jpg

Julho de  2005

* Na Barca do Inferno de Mestre Gil

Auto de moralidade composto por Zecatelhado por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dª Maria Rita, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Cenourinha, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos subitamente a um rio, o qual per força havemos de passar pera o inferno: o batél tem um seu arrais na proa: o Berzebú infernal e um companheiro.

 

DIABO: À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! – Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO: Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! –
DIABO: Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO: Em boa hora! Feito, feito!
DIABO: Abaixa aramá esse cu! Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.
COMPANHEIRO: Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO: Quem és tu?
FIDALGO: Sou da ilha, mê senhor!…
DIABO: De que ilha meu estupôr?
FIDALGO: Da Madeira, pois então?
DIABO: Eis que aqui tenho um cabrão!…
FIDALGO: Um quê, barqueiro maldito?
DIABO: Um cabrão! Ouvisto o dito…
FIDALGO: Espera aí que vais levar!…
DIABO: Acaso estás a brincar?
FIDALGO: Isso te pergunto eu!
DIABO: Olha, este endoideceu!
FIDALGO: Sabei vós que sou um Rei!
DIABO: Eh,eh,eh,! Com essa  já me mijei!…
FIDALGO: E a seguir vais-te cagar!
DIABO: Põe-te lá no teu lugar, não sabes tu que estás morto?
FIDALGO: Olha lá, o meu aborto!…
DIABO: Cala-te já e embarca!
FIDALGO: Mas p’ra onde vai a barca?
DIABO: Pró Inferno, meu banana!
FIDALGO: P’ró inferno, meu sacana?
DIABO: Direitinha sem desvios!
FIDALGO: Mas eu fui um homem santo!…
DIABO: Ao pé de ti sou um anjo!…
FIDALGO: Escuta lá ó meu  marmanjo!…
DIABO: Coze a boca a esse pulha!
COMPANHEIRO: Não sei onde puz a agulha…
DIABO: Mija na agulha e caga na linha!
COMPANHEIRO: É p’ra já bem depressinha!
DIABO: Vamo-nos pôr a caminho
Calou-se a boca do chibo
ao Inferno já arribo
que se faz tarde na hora
levar mais alguém agora
com este monte de merda
só se fosse um tal Lacerda
p’ra lhe estalar o focinho