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  • Dragoscópio

    ...Quando eu digo Deus não é forçoso que eu signifique um Deus confinado a determinado ritual religioso; de facto, posso apenas dizer aquilo que, de certa forma, o conceito de Deus simboliza e consagra, ou seja, determinados princípios e fins - uma causa primeira e uma causa final. Quer dizer, a minha acção deve reger-se por princípios e fins; não quedar apenas refém, enclausurada e cativa dos meios. Pois, conforme estipula a matriz da nossa própria civilização, a acção humana não é um mero exercício de meios; como não é um mero exercício de fins. Nesse caso, nesse exercício desligado e cacofónico dos meios ou dos fins cair-se-á fatalmente no desequilíbrio, na desarmonia caótica. Porque, assim sendo, ou os fins justificarão os meios ou os meios determinarão os fins. Perdidos os princípios, tudo se torna, então, possível. O cosmos deixa de estar sujeito a uma necessidade –isto é, uma ordenação primordial, eterna e transcendente (e transcendente não é nenhum palavrão feio, apenas significa não estar sujeito a caprichos, acidentes e acasos do tempo) – e passa a estar ao pleno dispor da sorte e do acaso. E de quem lá impera. Desce-se, assim, do reinado do sentido, do simbólico, para a tirania do aleatório, mascarada, no melhor dos casos, duma democracia de alienados. Note-se, a esse respeito, como o nosso tempo manifesta uma hostilidade e um desprezo ostensivo pelo “primórdio” e, em contrapartida, celebra o “media” e a “finança” – decantações, respectivas, quer do “meio”, quer do “fim”. Por outro lado, esta ordenação hierárquica das coisas fundada na criação (e entenda-se aqui “criação” não no seu significado apenas religioso, mas também artístico, não sòmente demiúrgico mas também poético – ou seja, não apenas bíblico, mas sobretudo helénico) é deveras interessante e terrível. Senão, reparemos: se aceitarmos a sua lógica teremos qualquer coisa como "o criado ou criatura deve servir o criador. Assim, devemos servir a Deus, tal qual o dinheiro nos deve servir a nós." Em contrapartida, se nos rebelarmos contra essa ordem, se entendermos que (por exemplo, porque não somos criados, porque somos meras moléculas sem qualquer vínculo ao sagrado) não devemos servir a Deus, pode, à primeira vista, parecer muito libertário, catita e altamente moderno, mas depois tem um reverso sinistro que nos atira, de escantilhão, para abaixo dos pré-históricos canibais: é que, na mesma medida, o dinheiro e tudo aquilo que nós criámos deixa de estar na obrigação de nos servir a nós. Tornamo-nos então, nós próprios, servos dos nossos criados, criados dos nossos produtos, prole e plasma dum qualquer Estado burocrático. Preciso de vos apontar a realidade actual à vossa volta? Porque nos rebelámos contra o superior, tornámo-nos escravos do inferior; porque enterrámos as asas do espírito, rastejamos agora no pântano da matéria; porque desertámos do princípio, estamos agora confinados à finança. Partimos e pulverizámos em míseros caquinhos todo o imenso templo da Crença em Deus, doravante nanificada em milhares de minicrenças: crença na casa, crença no carro, crença no sucesso, crença no progesso, crença na ciência, crença no jornal, crença na televisão, crença no pastor, crença no doutor, crença na turba, crença no número, crença no trabalho, crença no umbigo, crença no dinheiro - somos agora miriápodes ouriçados não já em patas mas em crenças, com as quais amarinhamos por tudo, empeçonhando a esmo, e tudo isso embrulhado no tal saco da super-crença na Finança Toda Poderosa, gestora do Céu e do Inferno na Terra. Em boa verdade, à crença deixámos de tê-la para passar a sê-la. De sujeito degradámo-nos a objectos; de protagonistas, passámos a acessórios; de portadores, a transportes; de proprietários, a possessos. O produto tornou-se mais valioso que o produtor. Descartado o Sagrado, a natureza tornou-se descartável para o homem e o homem, por sua vez, tornou-se descartável para a sua própria máquina industrial tecno-eficiente. O conjunto evolutivo lembra, cada vez mais, um foguetão cósmico que vai consumindo e largando andares à medida que se afasta e embrenha direito a sabe-se lá onde. Certo é que quanto mais aumenta a nossa descrença no Sagrado, quanto mais ao descrédito o votamos, ou seja, quanto menos importância lhe damos, mais aumenta a importância que damos a bugigangas e próteses existenciais que fabricamos, e, inerentemente, mais se agiganta a crença que para elas transferimos. No fundo, tanto quanto uma perversão na hierarquia de valores, é uma inversão que se instaura e, gradualmente, nos vai absorvendo: o novo sobrepõe-se ao original, o produto ao produtor, o medíocre ao sublime. De espaço de cultura, o mundo converte-se assim em mero palco da profanação. Desligado do cosmos, oscila, perigosa e maquinalmente, entre a incubadora artificial e o matadouro industrial.
    in Dragoscópio. A par do Jumento, a léguas os dois melhores blogues portugueses.
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Está decidido…

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ADEUS Ó MELGAS!…

ADEUS Ó MELGAS!!!…

– E agora?… – Agora mudam as melgas! Se tivessem TOMATES para começar a:

* Regular COM REGRAS RÍGIDAS o sector privado.

* Privatizar a desbunda em que se tornou o sector de transportes

* Privatizar ou encerrar 4 dos 5 !!!? canais de televisão pública

* Privatizar as coutadas para boys do partido em que se transformaram as empresas públicas

* Descascar de cima abaixo o esterco em que transformou este Serviço Nacional de Saúde

* Acaba com os verdadeiros “tachos” das acessorias públicas … EMAGRECER A SÉRIO ESTE ESTADO que sorve tudo o que se produz no país e ainda come sobremesa fiada… Talvez valesse a pena ainda acreditar na salvação para os meus netinhos. Mas isso era bom demais que acontecesse. Vai continuar a bagunça generalizada do “roube quem mais puder” e quem não puder que pague a conta.

O Profeta

Sobre a terra cansada de chuva, os nossos passos caminham para o seu além. Corremos, sem tempo e sem fôlego, contando as horas e os minutos que nos conduzem e submetem. Sem isso, não sabemos ter um destino e uma direcção que o encontre. Cada um de nós é um filho de Saturno, aquele que, no terrível quadro de Goya, ele agarra, rasga e devora.

Olhamos à nossa volta e tudo se desencantou. Ouvimos as vozes que dão voz ao espectáculo diário do mundo e é como se muitas palavras iniciadas por “d” se juntassem para nos dizer o que ouvimos: dívida, défice, despesa, desperdício, desemprego, desigualdade, desânimo, desilusão, descrença, desdcrédito, depressão, desistência, desgraça, desorientação, dúvida, difamação, desonra, dissimulação, desinteresse, desencontro, descida, desvalorização, decréscimo, derrocada, decadência, declínio, descalabro, desgosto, dor, doença, despedida.

Do ecrâ brilhante e sombrio das televisões, onde se exibe como se fosse uma novela numérica, a crise saltou sobre as pessoas, dando razão àquelas palavras antigas de Plauto que Thomas Hobbes fez suas e que Jorge Luís Borges gostava tanto de citar: “Homo homini lupus” ( “O homem é o lobo do homem”). Por todo o lado, há uma nuvem baixa de instintos que farejam, despedaçam e assassinam, como se a selva fosse o habitat que mais nos convém.

Fala-se com alguém e logo se escuta um susto, uma ansiedade, uma inquietação, um lamento, uma queixa. E não encontramos argumentos que contrariem essa aflição ou a razão que a gera. Somos até levados a concordar com ela, a avolumá-la, a acrescentá-la. Churchill dizia que era optimista porque isso lhe seria mais útil do que ser pessimista. Mas, na câmara escura em que o mundo se tornou, tudo se fez revelação do negativo, radiografia do esqueleto, reverso da vida. Como ensinou Nietzsche, “se olharmos o abismo, ele retribui-nos o olhar”. É disso que agora não queremos fugir.

Saio de casa e vejo um vulto quebradiço que anda sem saber para onde. A roupa acompanha a resistência enraivecida do corpo que cobre. Olho o homem nos olhos desmesurados, tento adivinhá-lo. A sua cólera alcança o Universo e é uma injúria. Grita: “Já não sei o que hei-de fazer para conseguir viver. SÃO TODOS UNS FILHOS DA PUTA!” Não lhe pergunto nada, não lhe respondo nada. O seu brado não precisa de perguntas nem de resposta. É uma resposta a todas as perguntas que já foram feitas. É uma pergunta a todas as respostas que já foram dadas. Ele não pára de gritar, e a sua voz é o eco da sua voz: “FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA!”!

O vulto continua a andar na rua molhada. Passa à frente de um restaurante da moda. Saem clientes da porta que se abre, enquanto o porteiro faz uma vénia risonha, estendendo a mão para receber a gorgeta. Esses que saem sorriem e ficam a conversar no passeio, antes de irem para os carros. Nas suas roupas há uma felicidade. Nos seus gestos há uma elegância. Só as caras são baças ou brutas. O homem em fúria observa-as, fita-as, enfrenta-as. Diz: “Vocês vão morrer também. Pensam que não morrem, mas morrem. E vão morrer mais depressa do que julgam. Para mim, morrer nunca é cedo. Para vocês, viver nunca é tarde. É essa a minha vantagem.” Roda sobre si mesmo. Pergunta: “Já viram a merda que fizeram?! Foderam o mundo e agora nós é que pagamos!” Um casal com ar altivo sai do restaurante e ouve estas palavras iradas. A mulher transforma a altivez em prudência, dizendo baixinho ao marido: “Não ligues, não respondas. É um doido!” Ele ouve-a e grita com uma voz rouca, que ás vezes soa sub-humana, outras vezes sobre-humana: “Sou doido, mas vocês é que foderam isto tudo. Tem sido uma festa! E AGORA AINDA QUEREM QUE A FESTA CONTINUE. À nossa custa. Com a nossa desgraça!” Diz isto e dá uma corrida. Aproveita um automóvel que chega e arruma-o. Estende a mão ao condutor. Recebe uma moeda. Atira-a para o chão gritando: “Eu não sou arrumador de carros. Fiz isto só para baralhar. Quero que vocês todos se fodam! Arrumem vocês os carros, seus cabrões!”

Faz gestos agressivos, violentos, descontrolados. Fala de Deus – e do Diabo. Diz: “Deus morreu, mas o Diabo não! Vocês são o Diabo. E o mundo que nos dão é o Inferno. O Diabo é o único que é feliz no Inferno. Por isso estão felizes. Mas vão pagar isto um dia! Vão pagar!” Subitamente aparece qualquer coisa na fala daquele homem que perturba a tarde. É como se as suas palavras de maldição viessem do coro de uma tragédia grega. Ou fossem a ameaça de um profeta judeu. De repente, Atenas e Jerusalém estão ali, naquele clamor, naquela rua antiga da cidade que foge do rio.

Oiço-o e caminho. Mesmo à distância continuo a ouvi-lo. O homem rouco e raivoso continua a gritar. As palavras que grita têm nelas uma praga. Atiradas ao mundo, são um um excremento que torna tudo sujo – real.

A minha posição, mais uma vez

000-abstencao

Novas Tecnologias

manguito

Lá Vem a Nau Catrineta

nau1

Lá vem a Nau Catrineta

que tem muito que contar

esta nau, diz o poeta

El-Rei a mandou zarpar

e de rosa a fez armar

para uma nova demanda

é D. José quem comanda

a barquinha em alto mar

da odisseia sem par

de loucos navegadores

ouvi agora senhores

outra história de pasmar

Com a borrasca a assolar

os sete mares do planeta

a pobre da Catrineta

mal se podia aguentar

por todo o lado rangia

no meio do temporal

e a marujada temia

p’lo peido-mestre final

e se o naufrágio fatal

se adivinhava iminente

que fazia o intendente

Capitão de Portugal?

Com ar despreocupado

como se houvesse mar-chão

de binóculo na mão

na ponte do almirantado

passeava acompanhado

pelos seus fieis tenentes

também eles indiferentes

à fúria do temporal

Era a cegueira total

na nobre gente da rosa

que de Saramago a prosa

o mote dera afinal?

O maralhal aturdido

com a força da ventania

opiniões dividia

sobre o caminho a tomar

Uns juravam que rezar

à Santa Virgem Maria

que sempre lhes acudia

se o caldo estava a entornar

era capaz de travar

a fúria do vento leste

pois só o apelo Celeste

os poderia salvar

P’ra outros, coisas da fé

eram tontices sem nexo

que desde o tabú do sexo

à última da Pia Sé

que aconselhava à ralé

a renegar a união

entre um mouro e um cristão

já que os de Alá e Maomé

não são como os de Yhavé

que era um loirinho Ariano

e não um reles cigano

de pele da cor de café

Um capitão com colhões

-no que D. José falhava-

era o que ali lhes faltava

para arranjar soluções

e não esperar que afinal

fosse o Liedson divino

com o seu instinto felino

em desmarcação fatal

aparecesse no final

a resolver finalmente

o problema punjente

da barca de Portugal

Com água a entrar em barda

as bombas quase a gripar

e a malta a desesperar

no meio de tal bernarda

uma figurinha parda

das laranjinhas da Lapa

foi-se acercando à socapa

da ponte do almirantado

e ao Capitão alheado

com a força do temporal

olhando-o com ar fatal

perguntou-lhe com um grasnado:

“Então vós, meu Capitão

perante tal cataclismo

que o pobre do autoclismo

da retrete do porão

com tanta gente a borrar-se

não descansa um segundinho

está “p’ráí” descansadinho

pela ponte a passear-se?!

Como é que pensa livrar-se

-a si a nós igualmente-

desta borrasca inclemente

que não augura acabar-se?”

D. José olhava a velha

que ousara importuná-lo

e se não fosse o chavalo

que lhe fazia parelha

saltaria tecto e telha

do seu punho já cerrado

e lhe teria mandado

tal borracho no focinho

que cagaria fininho

quatro dias sem parar…

mas lá conseguiu travar

vendo ao lado o chavalinho

“Pois saiba a dona Nélinha

bruxa do Salem da Lapa

capitã da laranjinha

que a mim não me tira a capa

e o discurso de zurrapa

com que tenta embebedar

a trupe que anda a lidar

dos mastaréus ao porão

cai redondinho no chão

porque o saquinho está roto…”

……!!??…..

“Seu safado… seu maroto

ó seu valente aldrabão…”…

“É lá!… então, então?!…

que merda vem a ser esta?

eu aqui dormindo a sesta

no meu real cadeirão

e acordo com a discussão

entre estes dois galifões?!

Eu D. Aníbal Cavaco

Presidente desta treta

que é a Nau Catrineta

metida neste buraco

aviso-te meu macaco

e a ti bruxa xereta…

…Quero saber que plano

tem cada um de vocês

p’ra nos pormos outra vez

a voar a todo o pano

………………………………..

D. José, seu carcamano

seu vendedor de ilusões

e a cáfila de coirões

que lhe dão uso ao abano

e a si velha jarreta

que na tropa já tem netos

e ao rebanho de betos

que a seguem na Catrineta

Ou me dizem nesta hora

aqui já sem mais delongas

o que essas cabeças mongas

pensam aqui e agora

p’ra tirar a nau do laço

desta borrasca maldita

ou a Santa Benedita

boa santinha do Paço

recebe no seu regaço

um par de anjos sem cabeça

que o carrasco desta peça

vai tratar de pôr o laço”

“Perdoai real senhor

-returque a velha primeiro –

mas aqui este engenheiro

diplomado a favor

não sabe como se opor

sequer à mija de um cão

quanto mais ao temporão

que assola a Nau Catrineta…”

“… E vós, ó velha jarreta

-responde-lhe o Capitão-

Possuís a solução

Na pontinha da vareta?”

“Pois possuo, seu farsante

mas estar-se-à a enganar

se pensa que lha vou dar

aqui mesmo neste instante

se daqui para diante

me elegerem Capitã

estai certos que amahã

temos mar-chão pela vante”

……………………………

“Ah, ah,ah,, deixa-me rir

que a velha é muito engraçada

tem então já aprontada

a solução do porvir?”

“ Claro, seu palerminha

meta bem dentro da tola

é ser como a formiguinha

e não cigarra estarola

não lhe ensinaram na escola

a fábula de La Fontaine?…”

esse seu conto perene

devia ser-lhe lição

mas você, seu malucão

está-se a cagar p’á despesa

cama farta e boa mesa

para os boys do seu brazão…

…Chegada enfim a borrasca

a desgraça fica a nú

todos vós ficais à rasca

sem um euro no baú

e se vos aperta o cú

tornam Éolo  culpado

…………………………..

Há que pôr um fim ao fado

está a ouvir, seu gabirú?”

…………………………….

“Olha a velha pingonheira

esqueceu-se, será possível

dos tempos de D. Aníbal

do qual era a tesoureira?”…

“Eu não sou p’ráqui chamado

-vocifera o algarvio-

o que passou está passado

e é o futuro do navio

que urge dar salvação

E quanto a vós, Capitão

que apontais para salvar

a Catrineta Nação

que se presta a afundar?

vejo-vos tão paciente

esperançado, indiferente,

o que estais a magicar?”

“Meu senhor, eu D. José

sou desde mui pequenino

um homem de muita fé

não em Deus, mas no destino

Olhando p’rá nossa história

somos pátria de odisseias

sempre cobertas de glória

Ó pátria mãe de epopeias

…………………………………

eis que um’outra tenho em mãos

tirar esta nau real

queridas irmãs e irmãos

deste mar de temporal

Que o ser português profundo

dos grandes heróis de antanho

que choraram baba e ranho

pelos sete mares do mundo

Sepúlveda e Mendes Pintos

e outros tantos que mais

desde os Gamas aos Cabrais

Bartomeus ou Jacintos”…

-“…???!!! Jacintos?…

pergunta a velha carcaça-

…essa agora teve graça

Mas quem foram os Jacintos?!”


“… O nome que agora dei

àqueles desconhecidos

que nunca reconhecidos

andaram nas naus de El-Rei…

……………………………………

Pelo que sabem e eu sei

estes heróis do passado

sempre escaparam por bem

à desgraça do seu fado

e que sem nada o prever

sem mexerem um dedinho

sairam bem de finiho

das alhadas, estão a ver?…

……………………………….

Deixem correr o marfim

que mal ou bem nos safamos

se na merda todos estamos

ela há-de chegar ao fim

Como diz o Zé Povinho

siga a marcha toque a banda

de Lisboa a Samarcanda

p’rá frente é que é o caminho

e eu garanto a vocês

que este doce e triste fado

que é o nosso em todo o lado

se cumpre mais uma vez

Bate o Pau e Sobe o Pano

(Assim ao jeito de Mestre Gil)

( No camarote de D.José, Capitão da Catrineta, está reunido o alto comando do clâ da “Rosa”)

D. José: Faz-me um favor ó Teixeira, levanta o cú da cadeira e vê se a porta está trancada, que eu não quero nem por nada que alguém por ela irrompa e a reunião interrompa por uma merda de nada.

D. Teixeira: (Levantando-se) Pode ficar descansada sua ilustre senhoria e minha amada chefia que ela fica bem trancada.

D. Pinho: Ao Teixeira escapa nada, eh,eh,eh,eh!

D. José: Está toda a gente animada, vocês dois principalmente, será que há finalmente desafogo no baú?

D. Teixeira: Ó Pinho, responde tu que eu cá vou trancar a porta.

D. Pinho: Se vossa excelência não se importa, caro Capitão da “Rosa”, nem o imposto da “gasosa” que rende mais uns trocados, nos deixa desafogados, por isso a malta não estranha que a nossa amestrada aranha lá continue a tecer.

D. José: Estou a ver, estou a ver… mas então a que se deve a boa disposição?

D. Pinho: Ora ora Capitão, não somos barca-nação de um povo pouco exigente? Haja um pão para dar ao dente e um copinho de vinho, dinheiro p’ró cigarrinho e já está tudo contente!

D. José: Que esperteza de Tenente me saiu este D. Pinho. … Por falares em cigarrinho, vê se me pões a fumar.

D. Pinho: Não disse que ia deixar!?

D. José: Disse disse, tens razão.

D. Pinho: E então!?

D. José: Eu disse que ia deixar, só que ainda não deixei.

D. Pinho: E quando é que vai deixar?

D. José: De fumar?… Isso não sei!

D. Pinho: De fumar e de cravar, que de comprar já se sabe.

(Risada geral)

D. José: Venha o “Português Suave” e lume p’ró atear. Ó Canas tu vai espreitar p’lo canto da vigia, porque de noite e de dia aqueles gajos da ASAE…

D. Canas: Ai, ai!

D. José: Vamos então ao que interessa: P’ra já vou dar na cabeça ao nosso Alegre poeta; Mas que te deu na veneta para andares a conspirar com a “esquerda-caviar” que tanto mal diz da “Rosa”? E aquela ovelha ranhosa de pinta seminarista – que é o chefe bloquista- vá de se aproveitar. Está-se ele bem a cagar p’ra ti a p’rós desertores, desses tais “renovadores”, confesso de não sei quê! Mas o teu olho não vê- ou estás a ficar “tam tam”?- que esse maldito Louçã faz de ti um seu joguete?… Ou então queres-me lixar e está a pensar fundar…

Poeta Alegre: Pode acabar.

D. José: Acabei. Para bom entendedor…

Poeta Alegre: Pois então saiba o senhor que eu já pertencia à “Rosa”, ainda a vossa prestimosa figura de Capitão não passava de intenção nos tomates do seu pai!…

D. Pereira: Ai,ai,ai,ai,ai!… A coisa vai descambar e o caldo vai azedar, eu estou mesmo a ver que vai!

D. José: Poeta Alegre parai, ou ‘inda vos parto a fuça!

Poeta Alegre: Isso nem que a vaca tussa , como dizia o Perestrelo. Se me toca num cabelo leva um estalo no focinho que fica a cagar fininho até à Páscoa que vem!

D. José: Pois muito bem, vais a ferros ( solta D. José aos berros ) para o fundo do porão.

Poeta Alegre: ( Já a ferros e arrastado por dois capangas do MAI do comando de D. Pereira) Há sempre alguém que resiste… Há sempre alguém que diz não!…

D. José: Olha este parvalhão que nem mesmo assim desiste!… Ó meu, tu ainda não viste que agora é outra a canção?… Em tempos que já lá vão é que a “Praça da Canção” tinha amantes baladeiros. Agora é o Quim Barreiros e o bacalhau que quer alho!… Vá malta, bora ao trabalho que temos mais que fazer.

D. Vitalino: Eis o próximo dossier que vamos analisar.

D. José: Ó Pinho, põe-me a fumar, dá cá outro “Português”.

D. Pinho: Outra vez!?

D. José: É como vês!… Este poeta charmoso deixou-me bué nervoso.

D. Pinho: E o Pinho é que vai pagar!

( Risada geral )

D. Vitalino: Meu Capitão, meus senhores, há o caso dos armadores e mais os seus pescadores que recusam ir ao mar.

D. José: Ai não querem ir pescar?

D. Vitalino: Recusam-se a trabalhar pois não ganham p’rá despesa, vejam bem qual a tristeza com que os Santos Populares do alto dos seus altares vão olhar para as festinhas e toparem que as sardinhas não vão ser postas a assar…

D. José: Eu cá estou-me a borrifar p’rós Santos e p’rás Santinhas, se não se assarem sardinhas vai morrer alguém por isso? Desde que haja chouriço, presunto, vinho e bifanas, durante essas três semanas a ralé não vai ladrar…

D. Teixeira: Então nem pensar em subsidiar a “gasosa”?

D. José: Nós, os do clâ da “Rosa”, não cedemos à pressão. Não senhores, nem um tostão p’ra essa corja do mar.

D. Vitalino: Podemos aproveitar para dar folga aos cadumes que andam tão minguados.

D. Pereira: Acham-se mais dizimados que os africanos com sida!

D. José: Parece boa a medida, deixemo-los protestar.

D. Vitalino: Finalmente e para acabar falemos da concorrência, que ainda não abriu falência mas se tivermos paciência…

D. José: Ficamos sós no mercado.

D. Vitalino:… O fardo é bué pesado p’ra’quela velha sarronca, vai ser bronca atrás de bronca na luta pelo poleiro. Vai ter à perna o sendeiro maluco do Santanás que na desbunda é o ás que mais vale no baralho.

D. Pereira: E então quanto ao pirralho do chavaleco Coelho?

D. José: Não me amedronta o fedelho, embora o ar presenteiro , a carinha de escuteiro e a pose mui elegante. É só um puto pedante que ainda cobra à nação subsídio de aleitação…

D. Vitalino: Em suma: Um fraldisqueiro?

D. José: Nem mais! Outro sendeiro.

D. Pereira: E quanto a D. Santanás?

D. José: Nunca mais será capaz de pôr fim à travessia e anda de noite e dia como as tribos de Israel âs voltas em carrocel. Tem a mania que é esperto, vivaço e muito atrevido só que…

D. Vitalino: Só que…?

D. José: É um camelo perdido entre as dunas do deserto.

FIM